A METAFÍSICA DE ARISTÓTELES

Até agora, afirma o sábio Aristóteles, nos dedicamos em explicar o mundo somente por causas materiais(a doutrina das quatro causas). Outros começaram, tentaram explicá-lo por causas formais(elemento mais importante é a essência), idéias, eidos, Platão. Porém, procuramos explicar outras duas causas, a causa eficiente por quem foi feita, o autor, e a causa final para que foi feita.

Aristóteles afirma contra os eleatas que o ser não tem apenas um único sentido, mas múltiplos sentidos(on pollakós legetai – o ser de várias formas se diz). O primeiro sentido do ser é como substâncias e como categorias, dessas categorias a substância é a primeira. As categorias são os elementos fundamentais das coisas, as características primeiras das coisas. A substância é equivalentemente a essência. A substância é aquela e não uma outra. Por exemplo: a substância de Moisés é que ele é Moisés. Segunda substância, o ser acidental, Aristóteles define o acidental como algo não essencial a uma determinada coisa. Algo que está ligado à coisa, mas que não poderia estar separado. Ex: Se a pessoa é alta, baixa ou assim por diante.

O ser como verdadeiro e o ser como falso. O ser verdadeiro é aquele que junta no nível da mente as coisas conjugando-as como elas estão na realidade. O ser é falso quando na mente junta coisas que não estão unidas na realidade.

O quarto sentido do ser: o ser em ato e o ser em potência. Aristóteles descobre o princípio metafísico do ato e da potência. O ato é uma realidade já totalmente realizada. A potência é a capacidade de realização que se encontra numa determinada coisa. Por exemplo, o mármore é algo em potência porque pode assumir qualquer forma, do mármore pode se fazer seja o Moisés como o Davi, a matéria neste sentido é potência capacidade de assumir qualquer forma.

A forma, pelo contrário, caracteriza-se como ato, quer dizer, como realização de uma determinada potência. A forma é a perfeição da matéria, enquanto que a matéria sozinha é algo indeterminada, a forma define e realiza as características essenciais de uma determinada coisa. As coisas têm matéria e forma, todas têm em ato e em potência. Por exemplo: a semente de um grande pinheiro é algo em potência, enquanto que o grande pinheiro crescido é a realidade em ato. O ato é a perfeição da potência. Na realidade potencial está incluído o ato, o desenvolvimento futuro daquela determinada coisa.

Em cada coisa existe uma matéria e uma forma. A matéria é a potência. A forma é o ato. A forma é a perfeição da matéria. Assim pode-se realizar uma equação, a matéria está para a forma como a potência está para o ato.

M = P

F    A

Princípio metafísico do ato e da potência

Nada passa da potência para o ato senão em força de um ato. Por exemplo, a capacidade que está no discípulo se desenvolve a partir do encontro com o mestre que tem experiência e sabedoria já em ato.

A doutrina do ato e da potência é muito importante para resolver as aporias eleáticas do devir e do movimento. O devir e o movimento não se formam por meio da passagem do não ser ao ser, mas por meio da passagem do ser em potência para o ser em ato. Realiza-se uma passagem de um tipo de ser para um outro tipo de ser. Não entra em ação o não ser como fato absoluto.

Parmênides tinha razão quando afirmava que do não ser não deriva nada, mas ele não tinha descoberto o valor último do ser que não é algo de estático ou de monolítico, mas é algo que tende a uma realização sempre mais plena. O princípio do ato e da potência é usado por Aristóteles em todas as ciências, mas tem um valor particular na prova da substância supra-sensível e da realidade de Deus que ele entende como motor imóvel, como princípio do movimento de todas as coisas.

O que é a substância? É a matéria? É a forma? Ou a matéria e a forma unidas numa realidade que se chama sínolo?

Para Aristóteles, em primeiro lugar, a substância é a matéria, isto é, o princípio constitutivo das realidades sensíveis. A substância é o elemento básico das coisas sensíveis. Esta matéria é uma potência indeterminada que pode se tornar algo determinado, somente recebe a determinação por meio da forma.

Em segundo lugar, a substância é a forma. A forma é o elemento decisivo para uma determinada coisa porque constitui a essência daquela coisa(o que é = quid est). A forma ou essência é chamada por Aristóteles de eidos que não é entendida como queria Platão, como uma forma que reside no hiperurânio. O eidos aristotélico é o constitutivo intrínseco da própria coisa. A essência para Aristóteles não está no hiperurânio, mas está dentro da própria coisa. A essência é o constitutivo ontológico imanente à própria coisa. O eidos é o rosto interior da própria coisa. Aqui se percebe que Aristóteles retoma a segunda navegação, mas a aprofunda descobrindo que as essências não estão fora das coisas, mas dentro das próprias coisas. A essência constitui a estrutura metafísica imanente da própria coisa.

Num terceiro momento, a substância é o composto de matéria e forma, o seu sentido mais próprio, a substância é o sínolo, a unidade de matéria e forma que dá origem às coisas concretas e individuais. As coisas reais resultam todas pela unidade de matéria e forma. Os indivíduos concretos são sínolos formados da união de matéria prima(prote) e forma substancial(entelequia), perfeição.

O motor imóvel

A prova da existência de Deus para Aristóteles tem como seu ponto de partida a experiência do mundo sensível. Neste mundo, percebe-se da parte de todos, o movimento. Ora, tudo aquilo que está em movimento é movido por um outro e este por sua vez por um outro ainda. Neste processo de reenvios, não é possível retroceder ao infinito de motor em motor porque assim nunca se encontraria a origem do movimento e, portanto, nem teríamos o próprio movimento. Agora, é necessário que haja um princípio absolutamente primeiro e absolutamente imóvel que seja a causa do movimento do universo inteiro.

1. observação = existe o movimento. O ponto de partida é o mundo físico.

2. princípio metafísico = tudo que se move é movido por um outro. Quidquid movetur ab alio movetur.

3. na série de reenvios não é possível retroceder ao infinito.

4. conclusão = existe uma causa, absolutamente primeira do movimento. Algo que move sem ser movido = o motor imóvel.

Características do motor imóvel.

Aristóteles define o movimento como passagem da existência a um ato. O ato puro é totalmente realizado porque tem toda perfeição. Esse princípio infinito sendo absolutamente imóvel deve ser entendido como totalmente privado de potência e, portanto, ele é algo totalmente em ato, ato puro.

Por isso Aristóteles chama o motor imóvel de ato puro. Isso identifica uma realidade que é totalmente realizada e que não tem nenhuma potencialidade. Deus é ato pleno, plena realização de si. Isso significa aquilo que Aristóteles chama de ato puro.

A segunda característica do motor imóvel é que ele é absolutamente espiritual, se a potência se identifica com a matéria, Deus que não tem nenhuma potência e é ato puro, ele é também uma realidade, uma substância totalmente espiritual. Ele é a suprema substância supra-sensível sem nenhuma mistura de matéria.

A terceira característica Aristóteles para explicar o motor imóvel, usa os conceitos de causa final e de vida intelectiva. O fim tem a capacidade de mover, enquanto fonte de atração. Deus move o mundo porque uma vez reconhecido como o bem supremo o atrai como objeto de amor.

Deus, segundo Aristóteles, suscita o movimento como um objeto de amor. Isso se explica porque não existe apenas a causa eficiente, por exemplo o escultor que modela o mármore, mas existe também a causa final que atrai pela sua bondade como objeto do desejo. Deus é causa final, atrai todas as coisas sem ele se mover de forma alguma.

Quarta característica, a natureza íntima de Deus é de ser vida intelectiva, este princípio do qual dependem o céu e a natureza é pura atividade contemplativa. Para Aristóteles, a atividade intelectiva é a atividade suprema, a mais excelente porque consiste na pura contemplação da verdade sem ser condicionada e subordinada a fins práticos.

Então, assim Deus é pensamento puro, é contemplação plena da verdade. Aristóteles diz que Deus é noéseos, pensamento de pensamento. A suprema atividade de Deus é a inteligência de si mesmo totalmente em ato. A vida de Deus é atividade intelectiva, plenamente atuada que não passa do não conhecer ao conhecer. Mas, que simplesmente é. Deus pensa a si mesmo. Pensa a plena verdade e contempla em plenitude a verdade.

Então a natureza de Deus é vida cognoscitada, plenamente realizada.

A Psicologia

Alma: vegetativa – sensitiva – intelectiva.

A sensitiva e a intelectiva se subdividem em: 5 sentidos; sentido comum; fantasia – memória(experiência); apetite – desejo; movimento. A experiência é o conjunto dos fatores que tem a ver com a percepção de um determinado objeto.

O conhecimento se dá por meio dos cinco sentidos. O fato sensível provoca uma capacidade sensitiva.

A antropologia aristotélica

A antropologia de Aristóteles é de caráter profundamente unitário. Por meio dos conceitos de matéria e forma e de ato e potência e por meio da diferença de Platão. Aristóteles salva a dignidade da pessoa. Para Platão, a imagem mais expressiva da alma era a do auriga, que dirige e controla os cavalos da sensibilidade e da iracibilidade. Para Aristóteles a alma é a forma do corpo, o princípio que identifica a pessoa sintetizando todos os seus atributos: a alma para Aristóteles é uma com três funções: a vegetativa, sensitiva e intelectiva.

O problema mais importante para a psicologia aristotélica é a definição de como acontece o conhecimento racional. Aristóteles parte do mundo sensível que é percebido pelos sentidos externos, depois é recebido pelos sentidos internos. Deposita-se sobre o intelecto passivo que é como um quadro negro sob o qual tudo pode ser conhecido na sua essência pelo intelecto agente ou ativo.

O processo cognoscitivo em Aristóteles parte das coisas sensíveis e termina na abstração que consiste na atividade do intelecto agente que capta a essência da coisa separando-a dos acidentes, a abstração é o termo típico de Aristóteles que indica a capacidade própria do intelecto de captar a essência das coisas que está em forma potencial nas próprias coisas. O intelecto ativo que é capacidade em ato de conhecer as essências é o elemento que faz passar as essências das coisas que se encontram dentro das próprias coisas do nível potencial ao nível atual. O intelecto é a forma suprema de conhecimento. Para Platão, o conhecimento acontece por meio da reminiscência. Para Aristóteles, conhecer é por meio do abstrato.

A ética consiste no estudo da conduta, do comportamento humano e da finalidade do homem, pois por meio de uma ação é determinado pelo seu fim pelo seu objetivo. Para Aristóteles, a ética consiste na realização plena das capacidades intrínsecas à natureza humana. A ética é a passagem da ética para o ato, de tudo aquilo que constitui a natureza humana. O fim último do homem para Aristóteles é a realização de todos os fins particulares e, portanto, no bem supremo, quer dizer, na felicidade.

A felicidade é por sua vez a realização de toda a natureza humana e das suas potencialidades. Por isso Aristóteles afirma que a felicidade não pode consistir na realização da parte negativa ou sensitiva da alma. Mas, sim, na realização do aspecto mais alto da alma, mais elevado da alma que consiste na alma racional. Por isso a felicidade não pode consistir no prazer, nem nas riquezas, mas na virtude que significa viver segundo a alma. Na ética entram o conceito de ato e de potência.

A ética aristotélica além de consistir na realização das potencialidades da natureza humana tem duas características: de ser a ética do hábito significa uma inclinação boa a uma ação constante. O justo meio entre os extremos, a virtude é uso da razão que consegue dominar os instintos superando e controlando a parte sensitiva e vegetativa, a virtude consiste na razão que domina paixões e instintos por exemplo a coragem é o justo meio entre temeridade e covardia; a liberalidade é o justo meio entre a avareza e a prodigalidade.

Aristóteles distingue as virtudes em éticas ou morais que tenha a ver com o domínio dos impulsos sensíveis por parte da razão.

Virtude ética, dianoéticas ou racional, consiste na sabedoria que consiste em dirigir corretamente as ações humanas deliberando segundo aquilo que é bom para o homem, a sabedoria é voltada às ações práticas do homem, a sapiência é a suprema atividade ética porque é a contemplação da verdade em si mesma, do divino é uma atividade auto-suficiente. Portanto, o máximo da ética consiste na contemplação e no amor à própria verdade, isso torna o homem partícipe de algo imortal, de algo divino.

As formas do estado segundo Aristóteles se dividem em justas ou corruptas, as formas justas são a monarquia, a aristocracia que consiste no governo dos melhores e poucos, a poilitia a maioria dos homens. As formas degeneradas são a tirania, a oligarquia e a democracia(demagogia).

A arte e a poética em Aristóteles.

Platão havia fortemente censurado o valor da arte porque é simples imitação do mundo das idéias. Aristóteles opõe este modo de analisar e conhecer a arte. E ele afirma duas coisas:

  1. O conceito de mimese, que longe de reproduzir pacificamente a aparência das coisas, recria as coisas segundo uma nova dimensão, a arte imita a realidade, mas evidenciando a dimensão do possível ou do verossímil, quer dizer, universaliza os conteúdos da arte, e os eleva a uma dimensão de beleza e de pureza que pode ser útil para todos; o produto artístico representa uma realidade segundo a sua verdade que pode ser vista e admirada por todos.
  2. O conceito cartase, consiste na purificação das paixões e esta purificação é a finalidade da arte. A cartase que se realiza, por exemplo, assistindo a uma tragédia grega por meio da piedade e do terror, acaba por efetuar a purificação pelo menos temporárias dessas paixões. A cartase poética não é uma purificação de caráter moral no sentido estrito. É mais uma purificação ligada ao prazer estético, porque por meio da participação ao drama da tragédia a nossa vida se purifica.

A tragédia é tanto melhor quanto mais capaz de expressar sentimentos universais. A arte verdadeira não prejudica, mas recupera a dimensão universal e racional do homem.

AS FONTES CENTRAIS DA FIL. CLÁSSICA(GREGA).

1ª Fase: Cosmologia: Os filósofos buscam a origem do cosmos, a origem do universo. O arché(fundamento) do universo.

– fase naturalística: A origem das coisas, fundamentos do porquê das coisas. O princípio que explica todas as coisas são elementos da natureza que explica o universo inteiro, são chamados naturalistas ou fisicistas. O universo tem um sentido, tem uma explicação. O olhar filosófico do homem grego é atento a realidade. O homem busca o sentido da realidade. Esse sentido é unitário(global). É o princípio que sustenta, que une todas as coisas.

– mesmo esta fase cosmológica tem a percepção que o mundo tem um sentido e esse sentido é totalizante e unitário.

– o método da Filosofia é o método racional, é o uso da razão, desde o início a Filosofia grega valoriza o sentido da razão. A Filosofia grega opta pelo logos. A afirmação da razão é o método filosófico do tipo racional.

2ª fase: antropológica: o estudo específico do homem. O valor do agir humano e do ser humano. A fase começa entre os sofistas e os socráticos que inicia com a pergunta: Qual é a essência do eu? Qual é a essência do homem? Sócrates responde: a essência do ser humano é a sua alma.

3ª fase: metafísica: o grande mérito de Platão é ter. É a visão do mundo material para o mundo supra-sensível.

A realidade toda tem um sentido, esse sentido está além do mundo físico. O essencial é invisível aos olhos humanos. É a descoberta do supra-sensível, do divino. O supra-sensível ou Metafísico não está fora desse mundo: o hiperurânio. A essência do supra-sensível está dentro desse mundo sobresensível. Aristóteles desenvolve toda a sua Metafísica(doutrina da substância) ATO e POTÊNCIA, da ética e da política. Qual é a lição da Filosofia Grega? Que o universo tenha um sentido, um valor. A grande lição é o valor da razão humana: o logos. A razão tem um instrumento para descobrir a essência das coisas. As coisas, tudo tem a sua essência. Essa essência aparece além das aparências. A razão humana é capaz de descobrir o mundo das essências. Por meio da razão, o homem pode chegar ao princípio de tudo: O sentido da realidade, MOTOR IMÓVEL, SUPRA-SENSÍVEL. Até aqui estudamos a Filosofia helênica.

4ª fase: Filosofia helenística: Quando a península da Grécia é conquistada pela Macedônia com Felipe II e Alexandre Magno, porém acontece um fenômeno muito estranho. A Macedônia era do ponto de vista unitário, mais forte, do ponto de vista cultural eles não tem nada.

A Filosofia helenística tem todos os requisitos, mas perde em intensidade porque ganhou em extensão.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s